sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Como Quem Pede Uma Esmola - Abgar Renault


Preciso de uma palavra.
Em que dia ou em que noite estará essa, que almejo,
ideal palavra insabida, a única, a exclusiva, a só?
Dela me sinto exilado todas as horas por junto,
com minha face, meu punho, meu sangue, meu lírio de água.
Soletro-me em tantas letras, e encontrá-la deve ser
encontrar a criança e o berço,
a unidade, a exatidão,o prado aberto na rua,
a rua galgando a estrela. Preciso de uma palavra,
uma só palavra rogo, como quem pede uma esmola.
Em florestas de palavrasos calados pés caminham,
as caladas mãos perquirem, os olhos indagam firmes.
Em que parábola cruel, em que ciência, em que planeta,
em que fronte tão hermética, em que silêncio fechada
estará viajando agora - mariposa de ouro azul -
a palavra que desejo?Lâmina sexo cristal
fulcro pântano convés voraginoso fluvial
Antígona circunflexa catastrófico crepúsculo
ênula ventre rosal sibila farol maré
desesperadoramente nenhuma será nem é
aquela do meu anseio. Como será, quando vier,
a palavra entrepensada, necessária e suficiente
para a minha construção de lápis, papel e vento?
Dura, espessa, veludosa ou fina, límpida, nítida?
Asa tênue de libélula ou maciça e carregada
de algum plúmbeo conteúdo? Distante, insone e cativo,
debaixo da chuva abstrata, eu me planto decisivo
no tráfego confluente, aéreo, terrestre, marítimo,
e espero que desembarque, triste e casta como um peixe
ou ardendo em carne e verbo, e pouse na minha mão
a áurea moeda dissilábica, a noiva desconhecida,
a coroa imperecível: a palavra que não tenho.

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