terça-feira, 6 de agosto de 2013

Humildes de Espírito

Jesus, no sermão da montanha — que bem se pode denominar a plataforma ou programa de sua obra de redenção — começou proferindo a seguinte sentença: "Bem-aventurados os humildes de Espírito, porque deles é o reino dos céus".
Porque humildes de Espírito? Bem-aventurados os humildes não seria o bastante? Porque a redundância — humildes de Espírito? Qual o motivo dessa superabundância de palavras? Simplesmente porque há várias formas de humildade; porém, só a de Espírito é que faz jus ao reino dos céus.
Há pessoas humildes de aspecto, de posição social, de haveres, de profissão, de trajes, de fisionomia, mas que não são de Espírito.
Outras há cujas palavras e gestos, ressumando lhaneza e doçura, afeto e humildade, mal escondem a soberba que domina seus corações. A verdadeira humildade, como, aliás, todas as virtudes vêm do íntimo. O exterior nem sempre traduz o interior.
Há grande número de maltrapilhos e de mendigos orgulhosos. Existem, outrossim, excepcionalmente embora, exemplos de humildade entre pessoas abastadas, que ocupam posição de destaque. Há também sábios humildes, que constituem honrosas exceções à regra geral que impera entre os letrados e eruditos. A ignorância petulante e enfatuada é coisa vulgar e corriqueira.
Até entre os chamados ministros do Cristo se encontram orgulhosos impenitentes, compenetrados da ideia de supremacia e convencidos de que só a eles cabem determinados privilégios de ordem e caráter divinos.
A moral cristã, em muita gente, não passa da esfera do entendimento, da região puramente mental; jamais atinge o círculo do sentimento, a zona do coração. E' do coração, no entanto, que vêm o bem ou o mal, a virtude ou o vício.
O orgulho, sob seus aspectos multiformes, é a grande pedra de tropeço da Humanidade. E' o pecado original, que os mortais trazem consigo, ao aportarem às plagas deste mundo. Daí a origem de ' todos os atritos, dissídios e odiosidades que mantêm os homens em atitude de mútuas hostilidades.
A virtude, como alguém já disse, exclui os cálculos: é espontânea, natural. Os humildes de posição, de saber, ou de haveres estão sujeitos às circunstâncias que os cercam na presente existência. Não há mérito nem virtude por isso, além do modo como suportam e se submetem às inevitáveis condições de precariedade em que se encontram.
A humildade de espírito, ao contrário, é fruto de uma conquista, de certo estado de elevação moral da alma. E, graças a essa virtude, o Espírito pode avançar com passo seguro na realização dos seus gloriosos destinos. O orgulho não só oblitera o entendimento, senão que impossibilita o Espírito de receber as inspirações e as graças emanadas do alto.
Não é possível aprender sem possuir humildade de coração. Quem é humilde reconhece que ignora e está sempre pronto a assimilar os ensinamentos que o céu outorga aos mortais, por este ou aquele processo.
A inibição mental é, as mais das vezes, consequência direta do orgulho. A senda da virtude, como o caminho da sabedoria, só podem ser perlustrados pelos humildes de espírito. O orgulho é o entrave do espírito em todos os sentidos. É o legítimo obstáculo às reconciliações, ao perdão, à unidade na fé e na ciência. Consequentemente é o fator da discórdia, desde o simples arrefecimento de afeto, até o ódio que separa, persegue e mata; é a eterna cizânia, que mantém os homens separados, intranquilos, sobressaltados; é o dispersador de forças e de elementos prestáveis e úteis, que poderiam militar conjuntamente com grande eficiência, em prol das boas causas; é finalmente, o fermento que neutraliza as intenções e as aspirações elevadas de muitos, conservando-os na esterilidade.
Razão, pois, de sobra assiste ao divino Instrutor da Humanidade, subordinando à humildade de espírito todas as bênçãos celestes, como também o acesso aos tabernáculos eternos.

Livro: Em Torno do Mestre
Autor: Pedro de Camargo – Pseudônimo Vinicius

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