quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Irmão X - Acertando Contas


Meu amigo:
Diz você que o médium, a rigor, deveria ser um estranho às letras para garantir a genuinidade do intercâmbio espiritual. Uma espécie de truão, atacado de mongolismo, cuja posição primitivista assegurasse a legitimidade do fenômeno.
Teríamos, assim, um espetáculo de êxito insofismável, à maneira dos êxitos de um encantador cuja presença a platéia reclama, pedindo bis.
Mas, é você mesmo o autor de várias declarações inequívocas de que a Doutrina Consoladora dos Espíritos é mestra de almas, com objetivos fundamentais na construção do Reino Divino nos corações humanos.
E acredita que os desencarnados responsáveis devam começar o sublime serviço, através de números estonteantes, valendo-se do primeiro bufão que lhes surgem à mira?
Não desrespeitamos o valioso trabalho de pesquisa, realizado pelos antecessores de Richet e pelos continuadores dele, no campo da observação. Os medianeiros, chamados a doar energias nas tarefas de materialização, constituem excelentes operários do bem, preciosos e raros, semeando robustas convicções a serviço do raciocínio. Quase sempre controlados por orientadores invisíveis permanecem, por enquanto, confinados em setor especialíssimo. São instrumentos, através dos quais nasceram respeitáveis teorias da ciência comum, interessada em não capitular diante do Espiritismo puro.
O problema, pois, nesse caso, é o da exteriorização da “força” com a qual é possível plasmar provisoriamente no tabuleiro das formas.
Daí, contudo, a dizer que o médium, em si, deva ser um idiota autêntico, seria fazer consagração da ignorância.
Pretenderia, porventura, garantir um milagre à custa de humilhação alheia? A fé que adornasse uns tantos não seria honesta se, por manter-se, viesse a exigir a cretinice de outros.
O médium, contrariamente ao parecer que você enuncia, não pode repousar no serviço de auto-iluminação.
Quanto mais aprimorado, mais eficiente o aparelho rediofônico. E, se isto ocorre, na esfera de realizações transitórias, através de metais que se desfazem com o tempo, que dizer dos impositivos das de ascenção do espírito eterno?
A riqueza mediúnica, num trabalho persistente e sólido, depende das técnicas de sintonia. E essas técnicas, em boa lógica, significam conquistas espirituais do aparelho receptor, vivo e consciente, na existência atual ou nas reencarnações passadas.
Sintonia é reflexão e ninguém pode refletir o que ainda não sente.
O nosso valoroso Camarão, não obstante a bravura com que preservou o solo pátrio, há trezentos anos, podia ser, efetivamente, um pequeno Alexandre, a comandar as lides da guerra que, no fundo, sempre nos reaproximam da taba, mas talvez não pudesse traduzir, naquele tempo, a leveza e a graça dos contos de LaFontaine, seu glorioso contemporâneo, antes da longa e castigada preparação.
Ninguém pode trair o tempo, e a conquista individual na sabedoria e no amor representa a verdadeira e inalienável condecoração do Governo do Divino Mundo.
Aliás, você pode reparar a realidade de nossas afirmativas na própria evolução do Cristianismo.
Jesus abraçou os pescadors simples e humildes, mas não os transforma em mágicos baratos do populacho.
Mateus troca a jurisdição fiscal pela meditação nos Escritos Sagrados, penetrando a cultura siro-caldaica e convertendo-se em oráculo da Boa Nova, na Judéia e na Etiópia, onde conheceu testemunho doloroso. João abandona a pescaria e interna-se no mundo grego, para deixar-nos o monumento sublime do seu Evangelho revelador. Pedro esquece as redes e as próprias fragilidades para examinar, atencioso, nos textos dos Profetas, de mistura com os labores sacrificiais da caridade, tornando-se o supervisor dos debates doutrinários de Jerusalém e aceitando o martírio e a morte da cruz em vista da sagrada compreensão adquirida.
Não precisamos, porém, navegar tão longe.
Tem você o seu escritório e a sua lavoura.
A tarefa pede-lhe prosperidade e eficiência. Cada companheiro de trabalho que lhe atende as diretrizes na subalternidade é seu médium no labor comum, intermediário de seu pensamento, de sua decisão e de seus interesses no círculo de luta que lhe diz respeito. Sempre vi você preferindo o auxiliar que lhe plasma a ideia com diligência, cortesia e segurança e interessando-se pelo servidor cuja enxada não tem ferrugem. Que mais? Você despede o empregado na terceira advertência mais forte, porque, como é natural, não é possível começar o mesmo serviço, todos os dias, nem há estoque de paciência para repetir dez vezes a mesma lição.
Acredita, portanto, que nós, os espíritos, chamados a lidar com os mais preciosos interesses do povo, quais sejam os da elevação da alma, à claridade do Evangelho Redentor, devemos permanecer condenados a trabalhar, dia a dia, com a ignorância sistemática e com a preguiça dos que não pretendem melhorar nem aprender, tão somente porque o infeliz que não sabe glorifica o fenômeno para a inteligência privilegiada que deve saber?
Não, meu amigo. Mude a posição do seu leme. A educação é patrimônio de todos e obrigação para quantos se dedicam ao serviço do esclarecimento alheio. E espero que você concorde pacificamente comigo, porque, nesse passo, enquanto um padre gasta a vida, de modo a bem cuidar do culto externo, um médium, para solucionar os delicados problemas da alma, seria obrigado a exibir, apenas, à porta de nossos templos veneráveis, uma certidão de analfabetismo.


Irmão X / Francisco Cândido Xavier

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