terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Os Outros

Dizes trazer o deserto no coração; entretanto, pensa nos outros.
Muitos pisam teus rastros, procurando-te as mãos no grande vazio...
Para um pouco e perceberá a presença nas sombras da retaguarda.
Enquanto gritas a própria solidão, compreenderás que a voz
deles está morrendo na garganta, através de longos gemidos.
Volta-te e vê.
Compara os teus braços robustos com os ossos descarnados
que ainda lhe servem de suporte às mãos tristes em que os dedos
mirrados são espinhos de dor. Enxuga o teu pranto e observa os
olhos fatigados que te contemplam... Falam-te a história de
esperanças e sonhos que o tempo soterrou na areia da frustração.
Referem-se ao frio cortante do lar perdido e à agonia da
ramagem nas trevas...
Para e compadece-te.
Deixa que respirem, ainda mesmo por um momento só, no
calor de teu hálito.
Quem poderá medir a extensão da grandeza de uma simples
semente, caída na terra que o arado martirizou?
A beleza de um minuto nos ensina, muita vez, a povoar de
alegria e de luz a existência inteira.
Diz antiga lenda que uma gota de chuva caiu sobre o oceano
que a tormenta encapelara e, aflita, perguntou:
– ”Deus de Bondade, que farei, sozinha, neste abismo
estarrecedor?”
O Pai não lhe respondeu, mas, tempos depois, a gota singela
era retirada do mar, convertida numa pérola para adornar a coroa
de um rei.
Dá também algo de ti aos que bracejam no torvelinho do
sofrimento, e, mesmo que possas ofertar apenas um pingo de
amor aos que padecem, tua dádiva será filtrada pelas correntes
da angústia humana e subirá, cristalina e luminescente, na
direção dos céus, para enfeitar a glória de Deus.

Meimei/ Francisco Cândido Xavier
Livro: O Espírito da Verdade, Cap. XIII – Item 13

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