sábado, 20 de junho de 2015

Emmanuel - Fé

Para encontrar o bem e assimilar-lhe a luz, não basta admitir-lhe a
existência. É indispensável buscá-lo com perseverança e fervor.
Ninguém pode duvidar da eletricidade, mas para que a lâmpada nos
ilumine o aposento recorremos a fios Condutores que lhe transportem a força,
desde a aparelhagem da usina distante até o recesso de nossa casa.
A fotografia é hoje fenômeno corriqueiro; contudo, para que a imagem se
fixe, na execução do retrato, é preciso que a emulsão gelatinosa sensibilize a
placa que a recebe.
A voz humana, através da radiofonia, é transmitida de um continente a
outro, com absoluta fidelidade; todavia, não prescinde do remoinho eletrônico
que, devidamente disciplinado, lhe transporta as ondulações.
Não podemos, desse modo, plasmar realização alguma sem atitude
positiva de confiança.
Entretanto, como exprimir a fé? — indaga-se muitas vezes.
A fé não encontra definição no vocabulário vulgar.
É força que nasce com a própria alma, certeza instintiva na Sabedoria de
Deus que é a sabedoria da própria vida. Palpita em todos os seres, vibra em
todas as coisas. Mostra-se no cristal fraturado que se recompõe, humilde, e
revela-se na árvore decepada que se refaz, gradativamente, entregando-se às
leis de renovação que abarcam a Natureza.
Todas as operações da existência se desenvolvem, de algum modo, sob a
energia da fé.
Confia o campo no vigor da primavera e cobre-se de flores.
Fia-se o rio na realidade da fonte, e dela não prescinde para a sua caudal
larga e profunda.
A simples refeição é, para o homem, espontâneo ato de fé. Alimentando-se,
confia ele nas vísceras abdominais que não vê.
Todo o êxito da experiência social resulta da fé que a comunidade
empenhe no respeito às determinações de ordem legal que lhe regem a vida.
Utilizando-nos conscientemente de semelhante energia, é-nos possível
suprimir longas curvas em nosso caminho de evolução.
Para isso, seja qual for a nossa interpretação religiosa da ideia de Deus, é
imprescindível acentuar em nós a confiança no bem para refletir-lhe a
grandeza.
Recordemos a lente e o Sol. O astro do dia distribui equitativamente os
recursos de que dispõe. Convergindo-lhe porém, os raios com a lente comum,
dele auferimos poder mais amplo.
O Bem Eterno é a mesma luz para todos, mas concentrando-lhe a força
em nós, por intermédio de positiva segurança íntima, decerto com mais
eficiência lhe retrataremos a glória.
Busquemo-lo, pois, infatigavelmente, sem nos determos no mal.
O tronco podado oferece frutos iguais àqueles que produzia antes do golpe
que o mutilou.
A fonte alcança o rio, desfazendo no próprio seio a lama que lhe atiram.
Sustentemos o coração nas águas vivas do bem inexaurível.
Procuremos a boa parte das criaturas, das coisas e dos sucessos que nos
cruzem a lide cotidiana. Teremos, assim, o espelho de nossa mente voltado
para o bem, incorporando-lhe os tesouros eternos, e a felicidade que nasce da
fé, generosa e operante, libertar-nos-á dos grilhões de todo o mal, de vez que o
bem, constante e puro, terá encontrado em nós seguro refletor.

Obra: Pensamento e Vida
Francisco Cândido Xavier

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