domingo, 5 de fevereiro de 2017

A Voz do Evangelho - Hilário Silva

Livro: A Vida Escreve
Espírito Hilário Silva / Francisco Cândido Xavier

Esparramado na poltrona, João Lício pensava. Sem dúvida, fora feliz nos negócios.
Enriquecera. Seu nome nos bancos indicava créditos de milhões. Que aceitava o Espiritismo,
aceitava. Nenhuma Doutrina mais consoladora. Mas daí a espalhar o que havia juntado, isso
é que não. Meditava, assim, por haver recebido na véspera a solicitação de duzentos mil
cruzeiros, da parte de amigos, para salvar grande obra periclitante. Para o montante do que
possuía, a importância referida expressava migalha; entretanto, segundo refletia, já havia
feito o possível. Dera grandes somas. Custeara a compra de vasto material. Cumprira com
os preceitos da cooperação e da caridade.
Sentia-se exonerado de quaisquer compromissos.
Ainda assim, ouvira dizer que o Evangelho respondia a consultas e resolveu
experimentar.
Levantou-se. Procurou o Novo Testamento e, após recolhê-lo, tornou a sentar-se. Abriu
indiscriminadamente. E caiu-lhe aos olhos a sentença de Jesus, no versículo dezenove do
capítulo seis, das anotações do Apóstolo Mateus:
- “Não ajunteis tesouros da Terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem e onde os
ladrões minam e roubam ...”
Como de houvesse recebido um choque, ponderou que o trecho não apresentava
significação para ele, porque sempre dera muito a todas as instituições de caridade. Abrira
outra vez. O Livro Divino, decerto, lhe reservava alguma consolação.
Repetiu o movimento e as páginas lhe mostraram o versículo dez do capítulo
dezessete, doa apontamentos de Lucas, em que Jesus assim se expressa:
- “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos
servos inúteis, porque fizemos somente o que deveria fazer.”
Surpreendeu-se mais ainda. O evangelho como que o chamava a brios. Nervoso,
inquieto, consultou pela terceira vez. E o Livro aberto exibiu o versículo vinte do capítulo
doze, igualmente das lições de Lucas, em que a voz do Senhor solta esta frase:
- “Louco, esta noite pedirão tua alma... E o que tens ajuntado para quem será?”
João Lício fechou o volume com mãos trêmulas. Espantado, tangido no íntimo,
encerrou a consulta. E, tomando o chapéu, saiu, procurando os amigos de modo a ver como
poderia ajudar.

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